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Alvenaria · Outubro de 2026 · 7 min de leitura

Parede dupla: porque é que a chuva chega ao pano de dentro

Chega novembro, entram três ou quatro dias de chuva com vento de sudoeste e, numa casa com poucos anos, aparece uma mancha húmida na parede do quarto que dá para a rua. Não está junto ao chão, não está no teto, está a meio da parede ou à volta da janela. Numa parede dupla bem feita isto não devia acontecer. Quando acontece, a causa quase sempre ficou fechada dentro da parede no dia em que ela foi levantada.

Parede dupla de tijolo em construção num dia de chuva, com a caixa de ar entre os dois panos e um pedreiro com EPI ao fundo

O pano de fora não é impermeável, nem tem de ser

Uma parede dupla tem dois panos de alvenaria com uma caixa de ar entre eles, muitas vezes com isolamento térmico encostado ao pano interior. É comum pensar que o pano exterior é a barreira à chuva. Não é. José Luís Miranda Dias, investigador do LNEC, lembra que ensaios feitos em obra mostraram que, sob chuva contínua, o pano exterior deixa passar parte da água, que se acumula na caixa de ar e só em parte volta a sair. E isto acontece em paredes com fendas ou juntas mal cheias, mas também em paredes com bom aspeto e juntas bem rematadas.

Ou seja, a parede dupla conta com a entrada de alguma água no pano de fora. O que a protege é a caixa de ar funcionar como um corte: a água que atravessa o pano exterior escorre pela face de dentro desse pano até à base, e lá tem por onde sair. Tudo o que liga os dois panos de forma contínua, ou impede a água de descer e sair, é um caminho para a humidade chegar ao interior.

Onde a água atravessa

Em obra conhecemos quatro culpados, e todos se resolvem enquanto a parede está a subir. Depois de fechada, nenhum se vê.

O fundo da caixa de ar, que quase ninguém vê

A água que entra tem de ter saída. Peixoto descreve a solução corrente: nas primeiras fiadas faz-se no fundo da caixa de ar uma meia-cana de argamassa com inclinação para fora, protegida com uma membrana impermeabilizante, e a água sai por pequenos tubos de PVC que atravessam o pano exterior.

Este detalhe falha de duas maneiras. Ou não se faz, e a água fica no fundo da caixa de ar a molhar a base do pano interior durante todo o inverno. Ou faz-se, e a argamassa que cai durante a elevação entope a caleira e os tubos, e é como se não existissem. Um tubo de drenagem que nunca pinga depois de uma semana de chuva merece ser olhado.

Os vãos e os cunhais

As janelas interrompem a caixa de ar, e é à volta delas que aparecem muitas das manchas. A mesma dissertação da FEUP recomenda fechar os topos das ombreiras com tijolo ou bloco do mesmo tipo da alvenaria, em vez de espuma ou de prumos de madeira, e deixar os remates dos peitoris preparados durante a execução da parede, com as cotas do vão em tosco certas para as peças de acabamento encaixarem bem. Nos cunhais, a furação dos tijolos que fica à vista tapa-se com argamassa hidrófuga logo a seguir a cada fiada, para a água não entrar pelos furos. Sobre o que fica por cima do vão, escrevemos sobre vergas e lintéis.

Porque se nota no inverno

No Grande Porto, a chuva de inverno vem muitas vezes com vento, e é a chuva batida pelo vento que mete água nas fachadas. O LNEC lembra também que, depois de parar de chover, a parede só seca ao ritmo que o tempo deixar: com frio, humidade alta e pouco sol, um pano exterior encharcado leva dias a secar. Uma ponte na caixa de ar que em julho nunca dá sinal começa a molhar o pano interior depois da primeira semana de chuva a sério.

Numa casa que já tem a mancha

Primeiro é preciso ter a certeza de que é chuva. Uma mancha que aparece depois de chuva com vento, na fachada mais exposta, à volta de vãos ou a meia altura, aponta para infiltração. Uma faixa junto ao chão que não varia é outra coisa, e explicámos como a distinguir no artigo sobre humidade ascensional. Cantos frios com bolor atrás dos móveis são condensação.

Confirmada a infiltração, abrimos um ou dois tijolos do pano exterior na base da zona afetada e olhamos para dentro da caixa de ar. Muitas vezes encontra-se lá a argamassa acumulada, os tubos tapados ou o isolamento caído. Limpa-se, desentopem-se ou abrem-se saídas e volta-se a fechar. Não prometemos que resolve sempre à primeira: se o pano exterior está muito fendilhado ou a exposição é muito forte, pode ser preciso tratar a fachada por fora, e essa decisão toma-se com quem projetou a casa.

Numa obra nova, tudo isto custa minutos por fiada. Feito depois, com a casa habitada e as paredes pintadas, custa bastante mais.

Na Preâmbulo Objetivo levantamos paredes simples e duplas, tosco e rebocos em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia e no Grande Porto. Se tem uma obra a começar ou uma parede que molha por dentro quando chove, fale com o Vicente Monteiro pelo 917 893 080 ou em obras@preambuloobjetivo.pt.

Fontes