Parede dupla: porque é que a chuva chega ao pano de dentro
Chega novembro, entram três ou quatro dias de chuva com vento de sudoeste e, numa casa com poucos anos, aparece uma mancha húmida na parede do quarto que dá para a rua. Não está junto ao chão, não está no teto, está a meio da parede ou à volta da janela. Numa parede dupla bem feita isto não devia acontecer. Quando acontece, a causa quase sempre ficou fechada dentro da parede no dia em que ela foi levantada.
O pano de fora não é impermeável, nem tem de ser
Uma parede dupla tem dois panos de alvenaria com uma caixa de ar entre eles, muitas vezes com isolamento térmico encostado ao pano interior. É comum pensar que o pano exterior é a barreira à chuva. Não é. José Luís Miranda Dias, investigador do LNEC, lembra que ensaios feitos em obra mostraram que, sob chuva contínua, o pano exterior deixa passar parte da água, que se acumula na caixa de ar e só em parte volta a sair. E isto acontece em paredes com fendas ou juntas mal cheias, mas também em paredes com bom aspeto e juntas bem rematadas.
Ou seja, a parede dupla conta com a entrada de alguma água no pano de fora. O que a protege é a caixa de ar funcionar como um corte: a água que atravessa o pano exterior escorre pela face de dentro desse pano até à base, e lá tem por onde sair. Tudo o que liga os dois panos de forma contínua, ou impede a água de descer e sair, é um caminho para a humidade chegar ao interior.
Onde a água atravessa
Em obra conhecemos quatro culpados, e todos se resolvem enquanto a parede está a subir. Depois de fechada, nenhum se vê.
- Argamassa caída na caixa de ar. Cada tijolo assente deixa argamassa a escorrer pela junta. Se não for retirada, cai para a caixa de ar e vai-se acumulando em cima dos grampos e no fundo. Basta um monte destes a tocar nos dois panos para a água passar de um lado para o outro. A dissertação de Pedro Peixoto na FEUP sobre controlo de qualidade de alvenarias insiste neste ponto: retirar a argamassa em excesso das juntas durante toda a elevação, para que a caixa de ar não perca espaço nem fique fechada, e limpar a caixa de ar por tijolos deixados em falta na base, que só se assentam depois da limpeza.
- Grampos mal colocados. Os grampos de ligação entre os panos são indispensáveis, porque fazem as duas paredes trabalhar em conjunto e reduzem os movimentos do pano exterior, que apanha mais variações de temperatura. Mas um grampo inclinado para dentro leva a água do pano exterior direto para o interior. Colocamo-los na horizontal ou ligeiramente descaídos para fora, e é por isso que os verificamos fiada a fiada: depois de o pano estar concluído ficam dentro das juntas e não há maneira de confirmar se lá estão, como a mesma dissertação nota.
- Isolamento mal fixado. A placa de isolamento deve ficar encostada ao pano interior e deixar a caixa livre. Quando descola e tomba contra o pano exterior, fica uma ponte húmida a toda a altura da parede.
- Fendas e juntas mal cheias no pano exterior. O artigo do LNEC refere que a maior parte da água que entra passa por fendas com abertura acima de 0,1 mm, sobretudo nas juntas de argamassa e na ligação entre a argamassa e o tijolo. Juntas cheias e bem apertadas reduzem a água que chega à caixa de ar, mesmo sem a eliminar.
O fundo da caixa de ar, que quase ninguém vê
A água que entra tem de ter saída. Peixoto descreve a solução corrente: nas primeiras fiadas faz-se no fundo da caixa de ar uma meia-cana de argamassa com inclinação para fora, protegida com uma membrana impermeabilizante, e a água sai por pequenos tubos de PVC que atravessam o pano exterior.
Este detalhe falha de duas maneiras. Ou não se faz, e a água fica no fundo da caixa de ar a molhar a base do pano interior durante todo o inverno. Ou faz-se, e a argamassa que cai durante a elevação entope a caleira e os tubos, e é como se não existissem. Um tubo de drenagem que nunca pinga depois de uma semana de chuva merece ser olhado.
Os vãos e os cunhais
As janelas interrompem a caixa de ar, e é à volta delas que aparecem muitas das manchas. A mesma dissertação da FEUP recomenda fechar os topos das ombreiras com tijolo ou bloco do mesmo tipo da alvenaria, em vez de espuma ou de prumos de madeira, e deixar os remates dos peitoris preparados durante a execução da parede, com as cotas do vão em tosco certas para as peças de acabamento encaixarem bem. Nos cunhais, a furação dos tijolos que fica à vista tapa-se com argamassa hidrófuga logo a seguir a cada fiada, para a água não entrar pelos furos. Sobre o que fica por cima do vão, escrevemos sobre vergas e lintéis.
Porque se nota no inverno
No Grande Porto, a chuva de inverno vem muitas vezes com vento, e é a chuva batida pelo vento que mete água nas fachadas. O LNEC lembra também que, depois de parar de chover, a parede só seca ao ritmo que o tempo deixar: com frio, humidade alta e pouco sol, um pano exterior encharcado leva dias a secar. Uma ponte na caixa de ar que em julho nunca dá sinal começa a molhar o pano interior depois da primeira semana de chuva a sério.
Numa casa que já tem a mancha
Primeiro é preciso ter a certeza de que é chuva. Uma mancha que aparece depois de chuva com vento, na fachada mais exposta, à volta de vãos ou a meia altura, aponta para infiltração. Uma faixa junto ao chão que não varia é outra coisa, e explicámos como a distinguir no artigo sobre humidade ascensional. Cantos frios com bolor atrás dos móveis são condensação.
Confirmada a infiltração, abrimos um ou dois tijolos do pano exterior na base da zona afetada e olhamos para dentro da caixa de ar. Muitas vezes encontra-se lá a argamassa acumulada, os tubos tapados ou o isolamento caído. Limpa-se, desentopem-se ou abrem-se saídas e volta-se a fechar. Não prometemos que resolve sempre à primeira: se o pano exterior está muito fendilhado ou a exposição é muito forte, pode ser preciso tratar a fachada por fora, e essa decisão toma-se com quem projetou a casa.
Numa obra nova, tudo isto custa minutos por fiada. Feito depois, com a casa habitada e as paredes pintadas, custa bastante mais.
Na Preâmbulo Objetivo levantamos paredes simples e duplas, tosco e rebocos em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia e no Grande Porto. Se tem uma obra a começar ou uma parede que molha por dentro quando chove, fale com o Vicente Monteiro pelo 917 893 080 ou em obras@preambuloobjetivo.pt.
Fontes
- José Luís Miranda Dias, Fendilhação de paredes de alvenaria da fachada de edifícios associada à ocorrência de infiltrações de água da chuva, LNEC, 3.º ENCORE, 2003
- Pedro Ivo Sereno de Sousa dos Santos Peixoto, Controlo de qualidade de alvenarias: visão comparativa entre teoria e prática, dissertação de mestrado, FEUP, 2013
- EN 1996-2, Eurocódigo 6: projeto de estruturas de alvenaria, parte 2: considerações de projeto, seleção de materiais e execução