Humidade que sobe pelas paredes: de onde vem e o que se faz
Há uma mancha que aparece sempre no mesmo sítio: junto ao chão, numa faixa mais ou menos horizontal, com o reboco a esfarelar por cima e um pó branco que volta depois de se limpar. Pinta-se, e passados uns meses está lá outra vez. Quase sempre é humidade que sobe do terreno pela própria parede. Em moradias e muros de Gulpilhares e do resto de Vila Nova de Gaia vemos isto com frequência, e o erro mais comum é tratar a mancha em vez de tratar a parede.
O que é a humidade ascensional
Tijolo, pedra, argamassa e betão são materiais porosos. Quando a base de uma parede está em contacto com água do solo, essa água sobe pelos poros por capilaridade, como num papel de cozinha com a ponta dentro de um copo. Sobe até ao ponto em que a água que entra pela base iguala a que a parede consegue evaporar pelas faces. É por isso que a mancha estabiliza a uma certa altura e fica ali durante anos.
A dissertação de Rui Torres no Instituto Superior Técnico, que reúne o trabalho de referência feito em Portugal sobre o tema, aponta três situações em que a parede fica em contacto com a água do terreno: fundações abaixo do nível freático, terrenos com muita capilaridade que puxam a água de uma cota inferior, e terrenos pouco permeáveis ou com pendente virada para a parede, onde a chuva escorre e se acumula junto à base.
Como se reconhece, e como não se confunde
Os sinais típicos são três: manchas húmidas junto ao solo, reboco degradado na franja superior dessas manchas e eflorescências, o tal pó branco, que é sal trazido pela água e deixado à superfície quando ela evapora. A mesma dissertação dá duas pistas úteis:
- Se a água vem do lençol freático, a mancha mantém praticamente a mesma altura ao longo do ano e costuma ser mais alta nas paredes interiores do que nas exteriores.
- Se vem de águas superficiais, a mancha varia com as estações e piora depois de períodos de chuva.
Convém não a confundir com a condensação, que aparece em cantos frios, atrás de móveis e em tetos, muitas vezes com bolor, e não segue uma faixa a partir do chão. Nem com uma infiltração de chuva ou uma rotura de canalização, que formam uma mancha localizada à volta da origem. Tratar uma coisa como se fosse outra é dinheiro gasto sem resultado.
Porque é que tapar costuma piorar
A reação mais habitual é picar o reboco estragado e voltar a rebocar com argamassa de cimento forte, ou forrar a base com azulejo ou tinta impermeável. Resolve o aspeto durante uns tempos e depois a mancha reaparece mais acima. A explicação é o mesmo equilíbrio de há pouco: quando se impermeabiliza a face da parede, ela evapora menos, e a água sobe mais até voltar a encontrar o ponto de equilíbrio. Nos estudos citados por Torres, o revestimento menos permeável ao vapor, reboco hidráulico com azulejo, foi o que levou a frente húmida mais alto.
As soluções que existem
Não há uma solução única, e a literatura técnica é honesta quanto a isso: a eficácia nem sempre é total e deve pesar-se a hipótese de sucesso contra o custo. As abordagens principais são estas:
- Corte hídrico: criar uma barreira contínua na base da parede que impeça a água de subir. Pode ser física, substituindo troços de alvenaria ou introduzindo uma membrana, ou química, injetando um produto hidrófugo em furos alinhados. Ana Sofia Guimarães e Vasco Peixoto de Freitas, da FEUP, analisaram os produtos de barreira química à venda: a escolha depende do tipo de parede, o produto tem de penetrar bem e a barreira tem de ficar contínua.
- Ventilação da base das paredes: solução estudada no Laboratório de Física das Construções da FEUP, que faz circular ar junto à base para aumentar a evaporação abaixo da zona habitada. Faz sentido sobretudo em paredes espessas e heterogéneas de edifícios antigos, onde as injeções funcionam mal.
- Afastar a água: quando a origem é superficial, corrigir pendentes do terreno, caleiras e tubos de queda que despejam junto à parede, ou abrir uma drenagem periférica, resolve muitas vezes o grosso do problema.
- Reboco de saneamento: argamassas macroporosas, muito permeáveis ao vapor, que deixam a parede secar e guardam os sais dentro da sua estrutura em vez de os deixarem rebentar à superfície.
Quando o reboco faz parte da resposta
É aqui que entra a nossa parte, e um reboco de saneamento não aceita atalhos. A ficha técnica do REABILITA RA 05 da Secil, por exemplo, manda remover a totalidade dos rebocos afetados por humidade e salitre, no pano inteiro ou pelo menos até 50 cm acima da zona degradada, escovar a parede, aplicar o novo reboco com 2 a 3 cm de espessura e nunca menos de 1 cm, e reforçar com rede as zonas sujeitas a tração, como cunhais, vãos e caixas de estore. Picar só a mancha visível e rebocar por cima deixa os sais na parede, e a mancha volta.
O acabamento também conta. Por cima de um reboco destes não vai tinta impermeável nem azulejo, senão perde-se a razão de ser do sistema.
E numa obra nova
Numa construção de raiz o problema evita-se no tosco: impermeabilizar as fundações e as paredes enterradas, criar o corte na base das paredes antes da primeira fiada de alvenaria e garantir que o terreno à volta afasta a água em vez de a encaminhar para a casa. Nessa fase custa pouco. Feito depois, com a casa habitada, custa bastante mais.
Se tem uma parede ou um muro com manchas junto ao chão, vamos ver antes de propor seja o que for. Na Preâmbulo Objetivo fazemos a remoção de rebocos, os rebocos novos, os muros e o tosco das obras novas em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia e no Grande Porto. Fale com o Vicente Monteiro pelo 917 893 080 ou em obras@preambuloobjetivo.pt.
Fontes
- Rui Torres, Humidades ascensionais em paredes de alvenaria de edifícios antigos, dissertação de mestrado, Instituto Superior Técnico, 2014
- Ana Sofia Guimarães e Vasco Peixoto de Freitas, A seleção de produtos para realização de barreiras químicas no tratamento da humidade ascensional em edifícios, Repositório Aberto da Universidade do Porto, 2006
- FEUP, Sistema higro-regulável de ventilação da base das paredes para tratamento da humidade ascensional em edifícios antigos, Repositório Aberto da Universidade do Porto
- Secil, ficha técnica do REABILITA RA 05, argamassa macroporosa para acumulação de sais