Tirar uma parede: o que se pode demolir e o que não se toca
A pergunta chega quase sempre pela mesma ordem: primeiro já se decidiu tirar a parede, depois pergunta-se se dá. E dá, na maioria dos casos, mas a conversa muda muito conforme a parede esteja apenas a dividir o espaço ou a segurar o que está em cima dela. A diferença entre as duas não se vê pelo lado da sala, e é por isso que esta é a decisão onde vemos mais gente avançar sem saber o que tem à frente.
Duas famílias de paredes, e só uma se tira sem mais nada
Numa casa há paredes que só se sustentam a si próprias e paredes que fazem parte da estrutura. A linguagem corrente trata tudo por parede, mas em obra são coisas diferentes.
- Divisória. Não recebe carga de cima. Serve para separar espaços, dar apoio a instalações e isolar som. Tira-se, abre-se ou desloca-se sem tocar na estabilidade do edifício.
- Parede estrutural ou de suporte. Recebe a carga das lajes, das paredes dos pisos superiores e, por vezes, da cobertura, e conduz essa carga até à fundação. Pode ser aberta, mas o que ela segurava tem de passar a ser segurado por outra coisa, e essa outra coisa calcula-se.
Há ainda um terceiro caso que dá problemas por ser ignorado: a parede que não é estrutural mas está a travar outra. Acontece em casas antigas, onde uma divisória de pano cheio encosta a uma parede exterior esbelta e lhe dá rigidez. Tirada a divisória, a parede exterior fica a trabalhar sozinha e aparecem fissuras onde ninguém mexeu.
Como se percebe, antes de furar
Nenhum destes sinais é prova por si só, mas juntos dão uma leitura fiável:
- Espessura. Divisórias correntes andam pelos 7 a 12 centímetros com o acabamento. Paredes estruturais de alvenaria raramente ficam abaixo dos 20 e, em construção antiga de pedra, chegam a 50 ou mais.
- Posição no conjunto. Uma parede que se repete no mesmo alinhamento de piso para piso é candidata a estrutural. Uma parede que existe só naquele andar, não.
- Direção da laje. As lajes apoiam-se nos lados mais curtos do vão. Uma parede perpendicular à direção das vigotas de uma laje aligeirada é, com frequência, apoio.
- Som e material. Uma pancada com os nós dos dedos distingue bem o oco de uma divisória de gesso laminado do maciço de alvenaria. Mas atenção: tijolo furado de divisória também soa menos cheio que betão, e uma divisória de pano cheio soa quase maciça.
- Vigas e pilares. Se houver um pilar embutido ou uma viga a sair da parede no teto, é estrutura, e não se mexe sem cálculo.
O que é decisivo, e quase nunca está em casa de ninguém, é o projeto de estabilidade do edifício. Em prédios construídos a partir dos anos setenta costuma existir e pede-se na câmara ou ao condomínio. Com o projeto na mão, a dúvida desaparece em cinco minutos.
Abrir uma parede estrutural: é possível, com três passos
Não há nada de impossível em abrir um vão numa parede de suporte. Há uma sequência que não se salta.
- Primeiro, cálculo. Um engenheiro de estruturas dimensiona o que vai substituir a parede, habitualmente uma viga metálica ou de betão apoiada em pilaretes, e verifica se a fundação por baixo desses apoios aguenta a carga concentrada que passa a receber. É aqui que algumas obras param, não pela viga, pela fundação.
- Depois, escoramento. Antes de cortar, escora-se o que está em cima, laje a laje se for preciso. O escoramento monta-se para carregar a laje e não a própria parede que vai sair.
- Por fim, a execução por fases. Abre-se o rasgo para a viga, monta-se a viga, faz-se o apoio e só depois se demole o pano debaixo dela. Nunca o contrário.
O erro mais caro que vemos é a ordem invertida: demolir primeiro e meter a viga depois, com a laje a assentar nesse intervalo. Mesmo que nada caia, a laje desce milímetros que já não voltam, e o resultado aparece semanas mais tarde em fissuras no teto e nas divisórias do piso de cima.
O que a lei exige, e não é pouco
Obras de alteração no interior de uma fração que não mexam na estrutura, nas fachadas nem nas partes comuns são, em regra, isentas de controlo prévio, por caberem nas obras de escassa relevância urbanística ou nas obras de conservação. Mexer na estrutura é outra coisa: entra no regime de licenciamento ou de comunicação prévia do Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, com projeto e termo de responsabilidade de técnico habilitado.
Em prédios em propriedade horizontal há uma segunda camada. As paredes resistentes e as lajes são partes comuns do edifício, mesmo as que estão dentro da fração. Alterá-las não é apenas uma questão técnica entre o dono e o empreiteiro: envolve o condomínio. Vale perguntar antes, por escrito, e não depois.
Antes de a parede cair: o que tem lá dentro
Uma parede que sai leva com ela o que estava embutido. Vale a pena saber o que é antes de a abrir:
- Eletricidade. Tubos e caixas. Se a parede for a que traz a alimentação do quadro para aquela zona, há circuitos a refazer, não só a tapar.
- Água e esgoto. Paredes de cozinhas e casas de banho levam prumadas. Uma prumada de esgoto é, muitas vezes, parte comum do prédio.
- Aquecimento e ventilação. Tubagens de climatização e condutas de exaustão, que têm percursos difíceis de desviar.
- Pavimento por baixo. Onde a parede assentava, o pavimento normalmente não existe. O remate é trabalho próprio e, com pavimentos antigos, é frequente não haver material igual para completar.
Os sinais de que se tirou a parede errada
Aparecem entre semanas e meses depois, e é por isso que a ligação à obra se perde:
- Fissuras no teto do piso de cima, paralelas ao sítio onde estava a parede.
- Fissuras em diagonal a partir dos cantos das portas das divisões vizinhas.
- Portas e janelas que passaram a prender ou a abrir sozinhas, sinal de que o vão se deformou.
- Pavimento que cede ao pisar junto ao local da parede demolida.
Nestes casos não se tapa a fissura. Mede-se se está a abrir, percebe-se o que deixou de estar apoiado e repõe-se o apoio. Tapar antes disso é dinheiro a perder duas vezes.
Como tratamos este pedido
Quando nos chamam para tirar uma parede, a primeira visita é para ver de que tipo ela é, o que tem embutido e se existe projeto do edifício. Se for divisória, damos o preço com o remate incluído, porque o remate é metade do trabalho. Se for estrutural, dizemos o que é antes de dar preço, e a obra só começa com cálculo e escoramento definidos. É a parte da conversa que ninguém gosta de ouvir e é a que separa uma obra que corre de uma obra que volta.