Roços: o que se pode abrir numa parede e o que nunca se corta
Antes de uma parede levar o reboco, tem de levar por dentro a canalização, os fios da eletricidade e por vezes o ar condicionado. Para isso abre-se um roço, um rasgo na parede onde o tubo assenta e depois se tapa. Parece o trabalho mais simples da obra e é onde se fazem alguns dos erros mais caros, porque um roço no sítio errado tira força a uma parede que estava a segurar a casa. Vale a pena saber o que se pode cortar e o que nunca se toca.
O que é um roço e para que serve
Um roço é um rasgo aberto na parede para esconder uma instalação: um tubo de água, um eletroduto com os fios, um esgoto fino, a tubagem do ar condicionado. Abre-se o rasgo, assenta-se lá dentro o tubo, fixa-se, e depois tapa-se com argamassa antes do reboco e da pintura. Bem feito, ninguém sabe que ali passa nada. Mal feito, aparece uma fenda no reboco a acompanhar o rasgo poucos meses depois, ou, pior, tira-se resistência a uma parede que não devia ter sido cortada.
Há uma pergunta que decide tudo, e é a primeira que fazemos antes de encostar a máquina à parede: esta parede é estrutural ou não? A resposta muda por completo o que se pode fazer.
Estrutural ou de divisória: saber antes de cortar
Uma parede de divisória serve só para separar dois espaços. Não segura o peso de nada por cima dela e, se a tirasse, a casa não sentia. Uma parede estrutural, ou de carga, é outra coisa: está a receber e a levar para baixo o peso das lajes, dos pisos de cima e do telhado. Cortar fundo numa parede destas é tirar carne a uma coluna que está a segurar a casa.
Nem sempre é óbvio qual é qual só de olhar. Há sinais que ajudam: paredes estruturais costumam ser mais grossas, batem maciço em vez de oco, ficam alinhadas de piso para piso e são as que assentam diretamente sobre vigas e pilares. Pilares, vigas e cintas de betão armado nunca são divisórias, são o esqueleto da casa. Na dúvida, não se adivinha. Confirma-se na planta da estrutura ou com quem tem competência para dizer, porque o custo de errar aqui não se compara ao de perguntar.
Numa parede estrutural, o que nunca se corta
A regra curta é esta: em elementos de estrutura não se abrem roços, ponto. O betão armado que forma pilares, vigas, lajes e cintas leva ferro por dentro calculado ao milímetro para aguentar a casa. Cortar aí atinge diretamente essa armadura e não há remendo que devolva o que se tirou.
- Pilares e vigas de betão. Nunca. Nem roço vertical, nem horizontal, nem um simples furo para prender fosse o que fosse sem antes saber o que está lá dentro. Um pilar picado é um problema de segurança, não de acabamento.
- Roços horizontais e inclinados em paredes de carga. São os mais perigosos. Um rasgo horizontal ao longo de uma parede estrutural corta-a onde ela mais precisa de estar inteira, como serrar uma tábua a meio. Evitam-se sempre; quando a instalação obriga mesmo, resolve-se por outro caminho, não à custa da parede.
- Roços fundos ou próximos uns dos outros. Vários rasgos juntos, ou um rasgo que passa de metade da espessura da parede, deixam de ser roços e passam a ser um corte. A parede fica com uma linha de menor resistência à espera de fissurar.
Quando o projeto pede uma instalação num sítio que obrigaria a cortar estrutura, a resposta certa nunca é cortar à mesma. É passar por outra parede, por baixo do pavimento, por um teto falso ou por uma calha à vista. Há sempre um caminho que não enfraquece a casa.
Roços que se podem abrir, e como
Em paredes de divisória e em alvenaria que não é de carga há margem para trabalhar, desde que com regras. As mais importantes têm a ver com a direção do rasgo e com o quanto se corta.
- Preferir sempre o roço vertical. Um rasgo a direito, de baixo para cima, tira muito menos resistência à parede do que um rasgo deitado. Sempre que der, a instalação desce ou sobe na vertical até à caixa e faz-se aí a ligação.
- Roço horizontal, o mínimo e curto. Quando é mesmo preciso, mantém-se curto e afastado do meio da altura da parede, que é a zona que mais trabalha. Um travessão de um metro para chegar a uma tomada é uma coisa; rasgar a parede de ponta a ponta é outra.
- Profundidade e largura contidas. O roço fica só com o fundo que o tubo pede para assentar, sem exagero, e nunca chega perto de atravessar a parede. Cortar mais do que o necessário não facilita a montagem, só enfraquece.
- Longe de portas e janelas. Os cantos das aberturas já são pontos onde a parede fende com facilidade. Um roço a passar rente a um canto de porta é quase um convite à fissura. Dá-se distância.
Cortar com máquina, não à marreta
A forma como se abre o roço decide metade do resultado. Um roço bem aberto tem os bordos direitos e limpos; um roço aberto à martelada racha a parede à volta e leva pedaços que não devia levar.
Trabalhamos com roçadora, a máquina de dois discos que marca as duas linhas do rasgo em profundidade certa antes de se retirar o miolo pelo meio. Fica um canal limpo, à medida do tubo, sem estilhaçar a alvenaria em redor. É mais rápido, faz menos poeira quando ligado à aspiração e, sobretudo, não abala o resto da parede. Abrir tudo a ponteiro e marreta pode parecer que poupa uma máquina, mas o que poupa em ferramenta gasta-se depois em fissuras e em reboco a repetir.
Tapar o roço para não fissurar depois
Um roço só está bem feito quando fecha sem deixar rasto. O erro comum é encher o rasgo à pressa com gesso ou com uma argamassa fraca, à espera que o reboco por cima disfarce. Não disfarça. O material do enchimento seca e retrai de forma diferente da parede à volta, e a junta acaba por se marcar em fissura no acabamento.
- Fixar o tubo primeiro. O tubo tem de ficar preso dentro do roço, com grampos ou gesso em pontos, antes de se tapar. Um tubo solto move-se e o enchimento fissura por cima.
- Encher com argamassa, em mais do que uma passagem. O rasgo fecha-se com argamassa apropriada, molhando antes o suporte para não roubar a água ao material, e em camadas se for fundo, não tudo de uma vez.
- Rede sobre o roço. Antes do reboco, aplicamos uma rede ou fita própria a cobrir a linha do roço. É o que costura o enchimento à parede e impede que a junta apareça em fenda no reboco pintado.
Em resumo
Um roço é trabalho pequeno com consequências grandes. Antes de cortar, saber se a parede é estrutural. Em estrutura, betão armado, pilares, vigas e cintas, não se abre roço nenhum, procura-se outro caminho. Em divisórias, prefere-se o rasgo vertical, mantém-se o horizontal curto e afastado do meio, corta-se com roçadora e não à marreta, e fecha-se com o tubo fixo, argamassa em camadas e rede por cima. Feito assim, a instalação fica escondida e a parede fica com a força que tinha. É o que separa uma obra que não dá que falar de uma que abre fissuras no primeiro inverno.
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