Muros: o que faz um muro durar e o que o faz abater
Um muro raramente cai de repente. Primeiro incha de um lado, depois abre uma fenda, inclina-se um pouco mais a cada inverno e um dia cede. Quando isso acontece, a culpa quase nunca é da parede que se vê. Está no que ficou escondido por trás dela e por baixo dela, no dia em que foi construído. Um muro que dura e um muro que abate saem das mesmas mãos a fazer escolhas diferentes.
Nem todos os muros fazem o mesmo trabalho
Antes de falar do que os derruba, vale a pena separar dois muros que muita gente trata como se fossem iguais. Um muro de vedação apenas fecha um terreno; tem terra dos dois lados ao mesmo nível e o trabalho dele é pouco mais do que estar de pé. Um muro de suporte, ou de contenção, é outra história: segura terras que estão mais altas de um lado do que do outro. É esse que empurra, que sofre e que abate quando é mal feito.
O erro mais caro que vemos é tratar um muro de suporte como se fosse de vedação, levantando uma parede de blocos sem fundação a sério e sem qualquer drenagem, à espera que aguente uma encosta inteira. Não aguenta. O que decide tudo é a força que a terra faz contra o muro, aquilo a que na obra chamamos o impulso das terras.
A água é o que derruba muros
Esta é a parte que quase ninguém imagina. Um muro de suporte não é derrubado pela terra seca por trás dele; é derrubado pela água que essa terra guarda. Quando chove e a água não tem por onde sair, o terreno atrás do muro satura e passa a empurrar como se fosse uma piscina encostada à parede. A esse acréscimo de força chamamos impulso hidrostático, e é ele que faz o muro inchar, rachar e por fim tombar para a frente.
É por isto que a falta de drenagem é, de longe, a causa número um de muros que cedem. A água acumulada por trás aumenta muito a pressão sobre a parede, e um muro que estaria bem dimensionado para terra seca fica em esforço para lá do que aguenta. Resolver isto não é caro nem complicado. É só preciso lembrar-se dele antes de tapar tudo com terra, porque depois já não há acesso.
A drenagem que fazemos por trás do muro
Dar caminho à água é o passo que mais protege um muro de suporte e o primeiro que se corta quando há pressa. Fazemos sempre três coisas, e as três em conjunto:
- Tubo de dreno na base. Ao longo do pé do muro corre um tubo geodreno perfurado, com ligeira pendente, que recolhe a água e a leva para longe, para uma vala ou para a rede de águas pluviais. É o cano que evita que a água se junte onde faz mais estrago.
- Camada drenante de brita. Entre o muro e a terra deixamos uma faixa de brita limpa em vez de encostar o terreno diretamente à parede. A brita deixa a água descer depressa até ao tubo, em vez de a reter contra o muro.
- Manta geotêxtil. Uma manta própria separa a brita da terra e impede que os finos do solo entupam o dreno com o tempo. Sem ela, a drenagem funciona um ou dois anos e depois colmata, e é como se nunca lá tivesse estado.
A somar a isto, deixamos barbacãs, que são pequenas aberturas na parede a alturas certas para a água que ainda assim se junte poder sair para a frente do muro em vez de ficar presa. Um muro sem barbacãs e sem dreno é um muro que está a contar os invernos.
A fundação decide se o muro fica de pé
Um muro é tão firme quanto o que está debaixo dele. A base, a sapata, tem de assentar em terreno firme e a profundidade suficiente, nunca sobre terra vegetal ou aterro solto que cede à primeira chuvada. Uma fundação curta ou estreita demais não tem como resistir às duas forças que o muro sofre: a de tombar para a frente e a de deslizar na base.
- Assentar em terreno firme. Escavamos até encontrar solo resistente e limpamos a terra mole antes de betonar. É trabalho que ninguém vê, mas é onde o muro ganha ou perde.
- Sapata à medida do muro. Quanto mais alto o muro, maior tem de ser a base para o segurar. Um muro alto sobre uma sapata de muro baixo é um muro emprestado ao acaso.
- Betão e armadura onde é preciso. Muros de suporte com alguma altura pedem betão armado, com o ferro certo, e não apenas blocos empilhados. É a diferença entre uma parede que trabalha como um conjunto e uma que se abre pela junta mais fraca.
Onde o muro dá o primeiro aviso
Um muro que está a ceder costuma avisar antes de cair, e vale a pena saber ler os sinais. Uma barriga, ou seja, uma zona que incha para a frente, diz que a pressão por trás está a ganhar. Fendas na diagonal ou uma inclinação que aumenta de ano para ano são o segundo aviso. Terra ou água a escorrer por baixo do muro depois da chuva mostra que a drenagem falhou. Nenhum destes sinais se resolve com uma demão de tinta ou um remendo de cimento à frente. Tratam-se a tempo, aliviando a pressão e a água por trás, antes de o muro passar do ponto de não haver volta.
Então o que faz um muro durar
Não é a parede mais grossa nem o bloco mais caro. É a soma de coisas simples feitas na altura certa: perceber se o muro segura terras ou só fecha o terreno, dar caminho à água com dreno, brita, geotêxtil e barbacãs, assentar a fundação em terreno firme e com a base à medida da altura, e armar o betão onde o muro pede. O muro que abate em poucos anos saltou quase sempre a drenagem ou a fundação, para poupar uns dias e algum betão. É a poupança mais cara que há, porque refazer um muro caído custa muitas vezes o que teria custado fazê-lo bem à primeira.
Quando pedimos para tratar da drenagem antes de tapar as terras, não é para encarecer a obra. É para o muro ainda lá estar quando ninguém já se lembrar de o ter feito.
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