Ferro e recobrimento: o que fica escondido e não pode falhar
Quando uma estrutura de betão armado está pronta, o que se vê é o betão. O ferro fica escondido, e é precisamente por isso que tem de ficar bem protegido. O recobrimento das armaduras, a espessura de betão que separa o aço da superfície exterior, é um dos fatores que decidem quanto tempo a estrutura dura sem que a corrosão comprometa a sua capacidade. Em obras de alvenaria e estrutura em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, esta é uma das decisões técnicas que não admite improviso.
O que é o recobrimento e porque importa
O recobrimento é a distância entre a face do betão e a superfície do varão de aço mais próximo, incluindo cintas e estribos. Na NP EN 1992-1-1 (Eurocódigo 2), o valor que vai para os desenhos é o recobrimento nominal, cnom, que soma ao recobrimento mínimo uma margem para os desvios de execução, com valor recomendado de 10 mm (explicação da fórmula). Esta camada de betão cumpre duas funções:
- Proteção contra a corrosão: o betão é alcalino e cria um ambiente que protege o ferro. Com o tempo, a carbonatação (reação do CO₂ do ar com o betão) avança da superfície para o interior. Quanto menor o recobrimento, mais cedo chega ao aço e inicia a oxidação.
- Aderência: um recobrimento mínimo garante que o betão envolve o varão de forma eficaz, transmitindo as forças entre os dois materiais.
Os produtos da corrosão ocupam bastante mais volume do que o aço original. Essa expansão cria pressão interna no betão, que fissura e acaba por destacar. É o que se vê em manchas de ferrugem e betão a cair em varandas, pilares de garagem e muros com décadas de exposição.
Os valores de recobrimento usados em Vila Nova de Gaia
Em Portugal, os Eurocódigos estruturais são a referência para os projetos de estruturas de edifícios, nas condições fixadas pelo Despacho Normativo n.º 21/2019. O recobrimento depende da classe de exposição definida na NP EN 206, que classifica o ambiente a que cada peça fica sujeita. Para betão armado com vida útil de 50 anos, a especificação LNEC E 464 indica estes recobrimentos nominais mínimos (Quadro 6, reproduzido em trabalho académico do IPL):
- XC1 (seco ou permanentemente húmido, por exemplo interior seco): 25 mm, com betão de classe mínima C25/30.
- XC2 (húmido, raramente seco, por exemplo fundações): 35 mm, com betão C25/30.
- XC3 (humidade moderada, por exemplo exterior abrigado da chuva): 35 mm, com betão C30/37.
- XC4 (ciclos de molhagem e secagem, por exemplo exterior exposto à chuva): 40 mm, com betão C30/37.
Em ambientes com cloretos, como a zona marítima junto à costa de Gaia (classes XS), os recobrimentos exigidos são maiores e vêm definidos no projeto de estruturas. Para vida útil de projeto de 100 anos, o Eurocódigo 2 sobe duas classes estruturais, o que aumenta também o recobrimento. As normas portuguesas estão disponíveis no IPQ, em ipq.pt.
Como se garante o recobrimento em obra
O controlo do recobrimento faz-se com espaçadores (distanciadores ou calços). Estes elementos de plástico ou de betão encaixam na armadura e apoiam na cofragem ou no solo, mantendo os varões à distância correta:
- Devem ser colocados em quantidade suficiente para que a armadura não ceda entre apoios quando se caminha sobre ela ou durante a betonagem, de acordo com o projeto e o diâmetro dos varões.
- Devem ter a altura igual ao recobrimento nominal e resistir ao peso do betão. Espaçadores próprios são mais fiáveis do que fragmentos de tijolo ou pedaços de madeira.
- Antes de betonar, verificar visualmente que nenhum varão toca na cofragem.
Durante a betonagem, a vibração com agulha vibradora é essencial para que o betão preencha o espaço em torno dos varões sem deixar vazios. Vibração insuficiente em zonas com muita armadura origina "ninhos de brita", zonas com agregado à vista e sem pasta de cimento, que anulam o recobrimento mesmo que os espaçadores estivessem certos.
Recobrimento em muros, sapatas e peças em contacto com o solo
Em peças betonadas contra o terreno, como sapatas e muros de suporte, o Eurocódigo 2 recomenda recobrimentos maiores: pelo menos 40 mm quando se betona sobre terreno preparado, incluindo betão de limpeza, e 75 mm quando o betão é lançado diretamente contra o solo (cláusula 4.4.1.3(4)). O valor aplicável deve constar do projeto de estruturas e a equipa de obra confirma-o antes de montar a armadura.
O que acontece quando o recobrimento é insuficiente
Os problemas surgem com atraso, muitas vezes anos ou décadas depois da construção, o que torna difícil ligar a causa à origem. Quando a oxidação já progrediu, a reparação implica remover o betão degradado até ao ferro limpo, tratar a armadura ou reforçá-la se a perda de secção for significativa, e reconstituir o betão. O custo é incomparavelmente maior do que o de usar espaçadores e betão de qualidade desde o início.
A equipa da Preâmbulo Objetivo faz a parte da obra que fica escondida, e que tem de ficar bem feita precisamente por isso. Para muros, estruturas, betonilhas e alvenaria em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, contacte o Vicente Monteiro pelo 917 893 080 ou em obras@preambuloobjetivo.pt.
Fontes
- Diário da República, Despacho Normativo n.º 21/2019: condições de utilização dos Eurocódigos estruturais em projetos de estruturas de edifícios
- Repositório do Instituto Politécnico de Lisboa: anexos com o Quadro 4.4N do Eurocódigo 2 e o Quadro 6 da especificação LNEC E 464
- Dlubal: recobrimento nominal segundo a EN 1992-1-1 (cnom = cmin + Δcdev)
- Fine: recobrimento das armaduras e betonagem contra o terreno (EN 1992-1-1, 4.4.1.3)
- IPQ, Instituto Português da Qualidade (NP EN 1992-1-1 e NP EN 206)