Betonar no inverno: o que o frio faz à presa
Há uma ideia instalada de que no inverno a obra para por causa da chuva. A chuva é o menor dos problemas numa betonagem. O que decide se o betão de novembro vai ter a resistência que foi comprada é a temperatura, e é uma coisa que não se vê, não se mede a olho e não dá sinal nenhum no dia seguinte.
O que o frio faz, por dentro
O betão não seca. Endurece por uma reação química entre o cimento e a água, e é essa reação que lhe dá resistência. Como quase todas as reações químicas, abranda quando a temperatura desce.
Na prática isto significa que o mesmo betão, com a mesma composição e o mesmo fornecedor, ganha resistência muito mais devagar em dezembro do que em julho. Não fica pior betão no fim, desde que seja bem tratado; fica betão que precisa de mais tempo para lá chegar. É um problema de calendário antes de ser um problema de qualidade.
Há porém um ponto a partir do qual deixa de ser uma questão de tempo. Se a água de amassadura congelar antes de o betão ter ganho resistência suficiente, o gelo expande dentro da massa e rompe a estrutura interna que estava a formar-se. Esse estrago não se recupera com mais dias de espera. O betão ficou com menos resistência do que foi especificado, para sempre, e não dá sinal nenhum à vista.
A temperatura que conta não é a do meio-dia
O erro mais comum é olhar para o termómetro à hora da betonagem. O que interessa é a temperatura ao longo das horas e dos dias seguintes, sobretudo as mínimas da noite, e a temperatura do próprio betão e do que está por baixo dele.
Daí duas regras que seguimos e que não negoceiamos: não se betona sobre superfícies geladas, nem sobre armaduras ou cofragens com gelo, e não se betona quando a previsão dá gelo nas horas seguintes. Uma fundação sobre terreno gelado é uma fundação que vai assentar quando o terreno descongelar.
O que muda na obra
- Betona-se cedo. A betonagem feita de manhã tem o dia inteiro para ganhar alguma resistência antes da noite fria. A betonagem do fim da tarde entra na noite praticamente acabada de fazer.
- Protege-se e mantém-se. Cobrir a peça, manter o calor que a própria reação liberta, proteger do vento. A cura deixa de ser uma palavra no caderno de encargos e passa a ser trabalho de obra.
- Descofra-se mais tarde. Este é o ponto em que o inverno mexe mais no prazo. A cofragem sai quando a peça tem resistência para se aguentar, e no inverno isso é mais tarde do que a tabela de verão diz. Descofrar a horas certas em vez de a resistência certa é das causas mais evitáveis de uma peça fendida.
- Pede-se ao fornecedor a composição adequada à época. As centrais sabem disto e ajustam. Mas têm de saber a que horas e em que condições vai ser aplicado.
Os aditivos não são anticongelantes
Existem aditivos aceleradores, e têm o seu lugar: fazem o betão ganhar resistência mais depressa nas primeiras horas, o que no inverno é exatamente o que interessa. O que não existe é um aditivo que torne indiferente betonar a menos cinco graus. Nenhum produto dispensa a proteção da peça.
E há uma coisa que se vê em obras pequenas e que não se faz nunca: deitar sal na amassadura. Baixa o ponto de congelação, sim, e ao mesmo tempo ataca as armaduras por dentro ao longo dos anos. É trocar um problema de uma semana por um problema de vinte anos.
Betonilhas e argamassas: o mesmo princípio, agravado
Tudo o que é à base de cimento sofre do mesmo. Uma betonilha feita em novembro numa casa fechada, sem aquecimento e sem ventilação, pode levar o dobro do tempo da mesma betonilha em maio, e aqui junta-se um segundo problema: além de ganhar presa mais devagar, larga a humidade muito mais devagar.
Isto interessa ao dono da obra por uma razão concreta: é quem vem a seguir que paga a conta. O ladrilhador que assenta sobre uma betonilha que ainda não largou água vai ter peças descoladas, e a culpa vai parecer dele.
O que isto faz ao prazo, dito antes e não depois
Uma obra de estrutura entre novembro e fevereiro tem ciclos mais longos. Não é menos trabalho por dia, é mais tempo de espera entre fases. Quando damos um prazo nesta altura do ano, esses dias já estão contados lá dentro.
Dizemos isto na primeira conversa, porque é a diferença entre um prazo que se cumpre e um prazo que se anuncia. Quem prometer em dezembro os mesmos ciclos de junho está a contar com sorte no tempo, e sorte não é método.
Como organizamos o inverno
Pelas fases. As betonagens concentram-se nas janelas de tempo mais favoráveis e deixam-se preparadas para arrancar quando a previsão abre; o trabalho que não depende de presa — alvenarias interiores, roços, preparação de vãos — faz-se nos dias maus. Assim a equipa não para e as peças de betão não são feitas à pressa num dia errado só para a obra parecer que anda.